Quinta-feira, Julho 29, 2010

Ah, o carnaval...

O carnaval encanta pela sua extravagância, por ter e manter tantas pessoas juntas durante tanto tempo, por reunir, em sete dias, gente do mundo todo em uma só cidade e por tudo ser permitido, ou quase tudo. É, também, uma festa multifacetada, na qual as pessoas seguem verdadeiros rituais, fantasiam-se, ingerem todo tipo de bebida, externam amor e ódio, pulam, dançam, correm, tomam chuva, dormem no chão, abraçam (e beijam e...) desconhecidos e retornam a sua condição primária e atávica. Definamos. São as sensações e atos que praticam sem pensar, que apenas sentem e simplesmente fazem e, nesses dias específicos, elas podem. Necessidades básicas, inerentes aflorando e mostrando-se diante de tanto primitivismo impregnado nesse grande show, nessa mega manifestação de desejos secretos, ou não. Naquele momento todos são iguais, não existe raça, cor ou credo que os distinga.

Os foliões se despencam até lá de qualquer maneira para adorar seu ídolo, vê-lo de perto e, quem sabe, tocá-lo, beijá-lo, abraçá-lo etc. Por sua vez, os ídolos fazem jus a toda essa adoração manifestando suas vontades e fazendo com que elas se cumpram pelos seus súditos fiéis e afoitos, são as danças e passos ensaiados repetidos pela grande massa que se conglomera em torno dos altares (trios elétricos) e abaixo dos mais privilegiados que assistem dos camarotes, sem falar nos blocos, onde a utopia desse culto ao profano atinge seu ápice e o povo se entrega à loucura.

Ora, mas toda essa descrição do carnaval lembra muito a forma como viviam nossos ancestrais. Desde a adoração de ídolos em altares, passando pelas vontades cumpridas pelos súditos e danças, rituais e devoção sagrada até as formas de caracterização dos povos, onde cada grupo pintava-se e caracterizava-se de forma diferente, utilizando adereços feitos de animais que mais pareciam fantasias do carnaval de hoje. E, ainda, das manifestações instintivas que enfeitavam os tempos remotos.

Podemos dizer que o carnaval é um retorno às origens. É onde deixamos aflorar nossos instintos primários latentes e reprimidos pela sociedade atual. É como exprimimos tudo que sentimos enquanto mamíferos bípedes famintos. O que desejamos fazer, mas não podemos durante o resto do ano, coibidos pela moral e preceitos da civilização contemporânea. Todo ser humano tem no seu âmago um pouco do que eram os primeiros habitantes da Terra e, inconscientemente, deseja externar toda essa gama de sentimentos e sentidos tão confusos e tão comuns que afloram durante o carnaval. Ele retorna à sua origem e, deliberadamente, sente-se aliviado, desprende-se de tudo que o exacerba e, assim, deixa naqueles sete dias de luxúria aquilo que carregou e internalizou durante toda sua vidinha diária moderna, morna, politicamente correta, pacata e medíocre.

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