Fica ali, parada, olhando, pensando, lembrando, gosta de admirar as luzinhas piscarem, encantam-na, mas de uma maneira infantil, pura,
genuína. É uma daquelas coisas
que te fazem bem e pronto, um bem intermitente, como as luzinhas piscando. É
assim todo ano na época do natal, ela adora. Gosta de enfeitar a casa, de
armar a árvore com muitas bolas coloridas, presentes e luzes, muitas luzes
piscando sem parar. Não acredita em nada que norteia o natal, não é por isso
que gosta, mas porque lembra sua infância.
Nos dias que
antecediam o natal, sua família ficava mais próxima. Todos precisavam se
reunir e programar a festa, os presentes, a árvore, e era algo que faziam juntos. Nunca acreditou em Papai Noel, não cabia esse tipo de coisa nas suas crenças infantis, já que não eram lá muito favorecidos economicamente, então as
coisas eram feitas de uma forma diferente da que vemos nos filmes. Pra começar, a árvore não era comprada, nem os enfeites. Era uma tarefa dos homens a de
encontrar um bom galho para transformar em árvore de natal, tinha que ser um
galho seco, grande e com muitas ramificações. Enquanto o galho não era trazido,
os enfeites eram fabricados em casa, eram caixas de fósforos, de sapatos, de remédios e de todo tipo ou formato, que seriam embaladas com papel colorido e
encheriam a árvore e o cantinho dos presentes. Eles guardavam, durante o ano
todo, embalagens que pudessem servir, como pacotes vazios de café, lacres de
latas de leite ou chocolate em pó, fitas e papéis de presentes de outras
ocasiões e outras coisas. Tornavam-se bons enfeites, com um pouco de criatividade.
Quando
finalmente conseguiam o galho ideal, traziam para ser preparado. Este era cuidadosamente
envolto em algodão, a neve, e pendurado de cabeça pra baixo no teto por um fio,
era ali que começaria a se tornar uma árvore de verdade. Não havia luzinhas
piscando, não que se lembre. Ela estava sempre querendo participar da arrumação, mas era
incumbida de cuidar dos pirralhos, o que não a impedia de bisbilhotar. Depois
começava a fase dos comes e bebes. Era tudo feito por todos, sempre. Cada um
tinha sua especialidade. Ela gostava muito de uma espécie de sanduíche feito em
formato de rocambole, enrolado em papel celofane colorido, à medida que ia
comendo, ia desenrolando. No dia da véspera, acordava sempre bem cedo,
ansiosa, a casa cheia, os adultos cozinhando, preparando a mesa, dando os
últimos retoques, conversando e gargalhando. As crianças tinham poucas
preocupações, sua tarefa era brincar e esperar a chegada da noite, onde
ganhariam presentes, comeriam guloseimas e brincariam mais. Sabiam que
não seriam grandes presentes ou muitos e que os mais novos ganhariam mais,
porém, não se importavam. Quando a noite chegava, a mesa posta, o
cantinho dos presentes cheio (dos verdadeiros e dos falsos), a árvore lá no alto,
linda e imponente, a família toda reunida em volta, rindo muito, contando
piadas, comendo, bebendo, tirando fotos, trocando presentes... Era natal! Era
como se fosse o melhor natal do mundo! Parece pieguice, mas ela era
criança e aqueles foram os melhores natais que tivera.
Eles não tinham luzinhas piscando, não tinham peru, não tinham presentes caros, ou
uma pomposa guirlanda pendurada na porta, ou árvores compradas em loja, bolas
coloridas reluzentes, ou uma grande estrela brilhante no alto da árvore. Nada
disso fazia falta a nenhum deles. Mas e daí? Qual o real significado de tudo isso? Todos esses preparativos para apenas uma determinada noite do ano? O que significa essa
noite? Para os religiosos, essa data é a celebração do nascimento de Cristo,
para muitos é só um motivo pra festejar, para eles talvez fosse mais um ritual,
para ela era o natal, daqueles que nós vemos nos filmes.
